Terapia Canina
Cães treinados para serem terapeutas auxiliam
crianças e idosos na USP
Escolhidos pelo
temperamento, eles ajudam no tratamento de crianças autistas por interagirem
sem cobrança, o que diminui ansiedade. Terapia também é usada em cuidados
paliativos, situações de conflito e reavaliação de diagnósticos
Cães terapeutas para auxiliar são escolhidos de acordo com seu
temperamento e não por raça. Foto: Ingimage
Cães surpreendentemente se revelaram
excelentes ajudantes nos tratamentos psiquiátricos no Instituto de Psiquiatria
da Universidade de São Paulo (IPq). Primeiro, o projeto de terapias assistidas
por cães começou na sala de espera e tinha o objetivo de reduzir a ansiedade
das crianças com autismo. Mas deu tão certo que agora os cães treinados pela
associação Terapias Assistidas por Cães (TAC) fazem parte da própria
terapia.
“As pesquisas evidenciam que, muitas
vezes, o animal acaba assumindo o papel de intermediário da relação da criança
com outro ser humano”, diz a pediatra Marisol Sendin, que acompanha o trabalho
com os animais. Ela é coordenadora da Brinquedoteca do IPq, onde se desenrolam
as atividades com os cães e outras terapias.
Nas sessões de terapia, o vira-lata
Madiba, um dos cães da TAC, participa do atendimento de um menino com
Transtornos do Espectro Autista, termo que engloba diferentes tipos de
alterações caracterizadas por dificuldades de comunicação, comportamento e
interação social.
Cães interagem sem cobrança
Uma das características mais
importantes da interação dos cães, segundo os especialistas, é a ausência de
expectativas. Ao contar uma história para o animal, por exemplo, a criança não
sente a cobrança em relação à pronúncia correta, entonação ou fluidez de sua
leitura, e consegue desenvolver suas habilidades com mais facilidade.
A pediatra Marisol Sendim comenta que as crianças com problemas de saúde
mental são frequentemente apontadas como “erradas” e sofrem muito preconceito.
“Quando elas conseguem ensinar algo para o cachorro, é um
acontecimento muito positivo. E mesmo quando o cachorro não aprende, é
quase uma solidariedade com sua própria dificuldade, acontece uma
identificação”, afirma.
Cada cachorro da TAC recebe um
treinamento conforme a função que vai desempenhar, o que depende da análise do
comportamento do animal e não de sua raça, explica o fisioterapeuta Vinicius. O
golden chamado de Lion, por exemplo, muito tranquilo e carinhoso, é considerado
o “psicopedagogo” perfeito para atividades como leitura de histórias.
O vira-lata Madiba, por seu
perfil ativo e brincalhão, mas educado, foi treinado desde pequeno para atuar
como cão terapeuta. “Ele foi basicamente treinado pelos pacientes, que
ensinaram vários comandos, como rolar, dormir e dar abraço”, conta o
especialista.
Os animais também participam de sessões terapêuticas com
idosos. Foto: Ligia Kas/Facebook
Ajuda em momentos difíceis
Os bons resultados com a participação
dos animais convenceram a equipe do IPq a estender o recurso às crianças do
Hospital-Dia Infantil. Nessa área, a internação é voltada principalmente para
realização ou reavaliação de diagnósticos, situações de conflito não
controláveis apenas no ambulatório e ajustes de medicação.
Há pacientes com esquizofrenia, déficit de atenção, depressão e
transtorno bipolar, entre outras. Em todos esses casos, segundo os
especialistas envolvidos, a interação com os cachorros pode auxiliar bastante.
Em geral, três a sete crianças
participam dos grupos de terapia com os cães. As equipes observam a sua
interação com o animal, com os terapeutas e com as demais crianças do grupo, o
que proporciona informações valiosas para os médicos.
“Mesmo que inicialmente a criança não
consiga se aproximar do cão, ela pode ver outras crianças interagindo e trocar
experiências. A interação com o animal é um grande ganho”, afirma a médica
Marisol Sendim.
Os cães também dão suporte aos
pacientes da geriatria e sob cuidados paliativos. O fisioterapeuta Vinicius
Ribeiro conta que a interação com o cão também pode ajudar no processo de
recuperação de memórias e tirar a pessoa do isolamento.
Ele recorda especialmente um caso em
que o processo de memória mudou repentinamente a partir da interação com o cão.
“Isso levou a psicóloga a considerar a possibilidade de que aquele paciente não
estivesse, realmente, com Alzheimer”, diz Vinícius.

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